sexta-feira, 31 de agosto de 2007

direito de se cansar - João Mellão Neto

Sexta-Feira, 31 de Agosto de 2007 Versão Impressa
0 comentário(s)
Componentes.montarInfoNoticia(editoria, subeditoria, idPagina, GUIDPagina, "infoPage")
Ruim
Regular
Bom
Ótimo
Excelente
0 votos0
Componentes.montarRanking(editoria, subeditoria, idPagina, GUIDPagina, "votacao")
O sagrado direito de se cansar
João Mellão Neto
Tamanho do texto? A A A A
Componentes.montarControleTexto("ctrl_texto")
Declarar-se cansado, no Brasil, agora é crime? Trai a Pátria aquele que ousa declarar-se inconformado com os desígnios de seu líder? Mais do que isso. Segundo a cartilha lulista, quem não está de acordo com os rumos do governo é um verme que nem sequer deve ser levado em conta. Não vou aderir ao movimento ''''Cansei''''. Até por que não estou cansado de nada. Tenho criticado o lulismo, nesta página, há mais de 20 anos e continuarei a fazê-lo sempre que isso se mostrar necessário. Não é porque, a meu ver, os petistas estejam sempre errados, e sim porque, na sua ideologia, por mais que errem, eles se julgam sempre certos.O movimento ''''Cansei'''', vá lá, tem as suas falhas. A começar pelo nome. ''''Basta!'''', por exemplo, denotaria um inconformismo e uma combatividade muito maiores. ''''Cansei'''' demonstra enfado, um sentimento blasé de quem se enjoou do brinquedo e não pretende usá-lo mais. Ora, não é esta a disposição daqueles que se recusaram a votar em Lula, ao menos em São Paulo. Nós não nos ''''cansamos'''' de Lula. Fomos contrários a ele desde o início, não pela sua pessoa, mas por tudo aquilo que ela representa: populismo, assistencialismo, clientelismo e até mesmo corrupção. Isso sem falar na notória incompetência administrativa de seus apadrinhados, guindados a cargos de direção por critérios exclusivamente ideológicos. As trapalhadas dessa gente, somadas, custam ao Brasil bem mais do que todas as práticas corruptas imagináveis.Por ocasião de uma das eleições presidenciais que Lula perdeu (foram três), eu me recordo de ter escrito que a sua profissão de fé no marxismo era apenas de fachada. Ele era (e é) um fenômeno de massas e necessitava de algum embasamento doutrinário no qual se lastrear. Ao adotar os preceitos do socialismo-comunismo, no início da década de 1980, ele conquistou o apoio de boa parte da Igreja Católica e também o respeito dos setores ditos progressistas da intelectualidade universitária. Não o tivesse feito, seu futuro seria o mesmo de tantos aventureiros de palanque que, apesar de lograrem mobilizar as massas, têm vida curta por falta de conteúdo e consistência ideológica. Lula, intuitivamente, fez a opção correta. Evidência disso é que, mesmo perdendo três eleições, nunca lhe faltou um aguerrido e significante contingente de militantes.Mas, depois de 1989, com a queda do Muro de Berlim e a derrocada do comunismo, ele não poderia mais valer-se dos preceitos marxistas para governar. Para contentar os seus adeptos somente lhe restariam um governo altamente voltado para o social, uma política externa com traços marcadamente terceiro-mundistas e a ocupação da máquina administrativa pela intelectualidade (desde os meus tempos de faculdade tenho notado o inusitado fascínio que grande parte dos mestres nutre pelo poder...).Eram palavras proféticas. Lula, presidente, sabe que não pode mexer impunemente nos fundamentos econômicos. A economia está internacionalizada como nunca antes, os capitais cruzam o planeta em volumes e velocidades alucinantes, o potencial de risco de se aplicar dinheiro em cada país é cotado diariamente e qualquer medida voluntarista que o governo tome pode levar à sua ruína no dia seguinte. Lula compensa essa impotência econômica com uma política exterior em que não perde chances de reiterar a sua independência e mantém a sua militância pacificada com a distribuição maciça de cargos públicos.O governo Lula, a rigor, não tem um projeto. Todas as políticas sociais que, antes de sua primeira eleição, pretendia levar a cabo ou fracassaram por completo ou deixaram muito a desejar.O Bolsa-Família foi uma grata e imprevista surpresa. Não estava nos planos de Lula e sua equipe. Ao constatar que os programas Bolsa-Escola, Bolsa-Saúde e Vale-Gás, todos implantados na gestão FHC, funcionavam a contento, decidiu unificá-los e ampliar o seu alcance, de forma que, hoje, ele beneficia cerca de 25% da população brasileira.Não, eu não me ''''cansei'''' de Lula. Cansar implica deixar de gostar de algo ou alguém que antes nos atraía. Eu, pessoalmente, nunca gostei da figura pública de Lula, do que ele representa ou representou, da mesma forma que nunca acreditei na sua capacidade de resolver os problemas do Brasil.Lula não fez nem pretende fazer nenhuma reforma de vulto. Se a economia no seu governo vai bem, isso se deve a uma conjuntura internacional nunca antes tão favorável. Evidência disso é que todos os países emergentes apresentam excelente desempenho.O legado de Lula para a História? No que tange a ele, a agradável surpresa de constatar que o voto e o apoio dos pobres saem muito mais baratos do que se imaginava. Com um dispêndio a fundo perdido de apenas R$ 8 bilhões - uma parcela ínfima do orçamento da União - é possível pagar mesadas a mais de 11 milhões de famílias, garantindo assim uma máquina eleitoral invencível.No que tange à Nação, o problema é mais complexo e de conseqüências imprevisíveis. O esforço de todas as nações, desde os bancos escolares, de incutir nos jovens a ética do trabalho, aqui, no Brasil, foi dispensado sem o menor escrúpulo. Graças ao Bolsa-Família, os mais pobres descobriram que, se não tiverem grandes ambições, podem perfeitamente passar a vida sem trabalhar, recebendo apenas o dinheiro que o governo lhes garante.''''Cansei'''', desabafam alguns. ''''Basta!'''', insisto eu. Há, no mundo, nações que cresceram pela guerra, outras que se desenvolveram graças ao trabalho e, mais recentemente, há aquelas que se agigantaram pelo ensino. Mas não há registro na História de uma nação que tenha evoluído com base na esmola.João Mellão Neto, jornalista, deputado estadual, foi deputado federal, secretário e ministro de EstadoFax: (11) 3845 1794E-mail: j.mellao@uol.com.br

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

asilo político

SÃO PAULO - O empresário Oscar Maroni, preso em São Paulo desde o dia 14 de agosto, pediu asilo político a sete países, segundo informações de seu advogado, Daniel Majzoub. O pedido foi feito para a Suécia, Dinamarca, Holanda, Alemanha, Canadá, Uruguai e Panamá. Majzoub afirma que os países foram escolhidos por terem "uma democracia mais adulta, onde a questão da prostituição é vista de maneira mais atualizada." O advogado do empresário afirma também que encaminhou uma carta a um senador republicano dos Estados Unidos para explicar o caso de seu cliente e pedir o asilo político.

A defesa do empresário, dono da Boate Bahamas e do Oscar's Hotel, diz também que Maroni não teve chance de se defender das acusações e que se comprometeu a entregar seu passaporte, como garantia que não vai deixar o País. "O asilo político é uma opção", diz Majzoub, argumentando que seu cliente foi absolvido sete vezes da acusação de ter uma casa de prostituição. Para ele, a absolvição mostra que Maroni também não explora a prostituição, não incentiva nem trafica mulheres.

O advogado do empresário diz ainda que seu cliente recebeu convites de dois partidos políticos para concorrer à Prefeitura de São Paulo. "Ele é um potencial candidato, assim como o Kassab (atual prefeito de São Paulo)", afirmou Majzoub. Desde a decisão, por parte da Prefeitura, de fechar o Bahamas e interditar as obras do Oscar's Hotel, a defesa de Maroni tem acusado o prefeito. "Ele se julga acima do poder", diz Majzoub.

"Maroni tem família, quatro filhos e um neto. Ele se dispõe a entregar o passaporte", afirma a defesa, argumentando que o empresário é um "preso político em um regime democrático", já que não teve a chance de prestar depoimento se defendendo das acusações.

Segundo Majzoub, os países sinalizaram de maneira positiva. Porém, para que uma pessoa receba asilo político é necessário aprovação da ONU. "Aguardamos o trâmite burocrático da ONU e já denunciamos o caso para a Human Rights Watch", afirmou o advogado, dizendo que apelou à organização que defende os direitos humanos pelo mundo.

sábado, 4 de agosto de 2007

Mortos do vôo da Gol foram pilhados

sábado, 4 de agosto de 2007, 17:40 Onlinesábado, 4 de agosto de 2007, 17:40 Online
-->
0 comentário(s)
Componentes.montarInfoNoticia(editoria, subeditoria, idPagina, GUIDPagina, "infoPage")
Votar
Ruim
Regular
Bom
Ótimo
Excelente
0 votos0
Componentes.montarRanking(editoria, subeditoria, idPagina, GUIDPagina, "votacao")
Mortos do vôo da Gol foram pilhados logo após tragédia
Documentos e objetos como celulares e jóias de vítimas do vôo 1907 sumiram ou pararam na mão de ladrões
Christiane Samarco, do Estadão
Tamanho do texto? A A A A
Componentes.montarControleTexto("ctrl_texto")
BRASÍLIA - Os corpos das vítimas da tragédia do vôo 1907, envolvendo um avião da Gol, em 29 de setembro do ano passado, foram pilhados. Documentos importantes de alguns dos 154 mortos estão sendo usados hoje por falsários - um deles utilizou esses documentos no contrato de um empréstimo, no mês passado, em uma financeira de Brasília, para comprar um carro por R$ 20,4 mil.

Tão grave e impressionante quanto o uso criminoso dos documentos pessoais é o caso do celular de uma das vítimas que, dez dias depois do acidente, quando só tropas das Forças Armadas trabalhavam no local da queda do Boeing, apareceu em um subúrbio do Rio.

Por ter caído nas mãos de um revoltado e curioso "consertador" de celulares, o aparelho virou pivô de uma cena tétrica: sem que o corpo da mulher tivesse sido localizado e resgatado, o viúvo recebeu uma ligação feita a partir do celular dela. Do outro lado, uma voz masculina chamou-o pelo apelido de "Pretinho", uma maneira carinhosa pela qual era tratado pela mulher morta.

Ao longo da semana passada, o Estado recolheu provas e relatos de familiares a quem foram devolvidas carteiras, pastas e bolsas intactas dos parentes mortos, mas só com "documentos supérfluos", como carteirinhas de clubes esportivos, identificações profissionais e de freqüência em universidades e outros estabelecimentos de ensino. Há relatos em que fica claro que os espoliadores da tragédia só queriam mesmo os documentos.

Sem identidade

A empresária Janice Campos, moradora de Goiânia, recebeu o celular da filha funcionando e sem nada quebrado, além da bolsa com R$ 200, cartões bancários e talões de cheques, mas sem a identidade, CPF e certidão de nascimento do neto, sem a qual os dois, mãe e filho, não teriam embarcado em Manaus. Janice recebeu até a mochila do neto - dentro, a fantasia de Power Rangers.

Corpos de passageiros do vôo 1907, que nunca se separavam de certas jóias e não sofreram mutilações, foram entregues aos familiares sem alianças, cordões de ouro e brincos de estimação. Parentes receberam caixas de relógios sem um arranhão - e sem os relógios.

O comando da Aeronáutica, que coordenou toda a operação de resgate, a Gol e a Blake Emergency Services, empresa inglesa contratada para fazer o serviço de desinfecção e higienização de todos os pertences, não sabem explicar como sumiram dessas bolsas intactas os cartões de crédito, carteiras de identidade, carteiras de motorista e CPFs dos mortos.

Após a retirada dos objetos da selva de Mato Grosso, tudo foi reunido em um galpão, em Brasília. Entre a coleta e a devolução aos parentes, os pertences ou foram manuseados ou ficaram à vista de militares, índios e mateiros, policiais civis, bombeiros, funcionários da Gol e técnicos da Blake. Onde e como foi a pilhagem ainda é uma incógnita.

Nem documento nem cartão de crédito

Rolf Guthjar, morto aos 50 anos no acidente da Gol, foi o segundo passageiro do vôo 1907 localizado pelos militares do Para-Sar e identificado logo em seguida. No bolso de sua camisa, os soldados encontraram um telefone celular feminino. Bastou contatar a operadora para descobrir que a dona do aparelho era Rosane Guthjar, mulher de Rolf.

Como de costume, o empresário viajava levando consigo uma maleta preta da marca Samsonite, devidamente trancada à chave porque continha seus pertences mais valiosos, de documentos pessoais e da empresa a dinheiro em espécie. Naquele 29 de setembro, a última chamada registrada no celular foi para informar a mulher que estava levando o pró-labore dela, tal como havia prometido. Exatos R$ 5 mil. A maior surpresa de Rosane Guthjar foi receber um molho de chaves e o passaporte do marido pelo correio, na residência do casal, em Curitiba.

"Tanto o passaporte quanto as chaves estavam dentro da maleta. Disso não tenho dúvida", afirmou ela, para fazer, em tom de revolta, uma dedução óbvia: "Se o passaporte é de papel e estava em perfeito estado, como se tivesse saído da gaveta, só posso concluir que a maleta foi aberta na marra, depois da queda do avião." No entanto, nenhum documento pessoal do empresário nem tampouco seus cartões de crédito estavam nela.

"Nem falo da pulseira de ouro com brilhantes que não tirava do pulso, do relógio Bulova ou das canetas Mont Blanc, que ele carregava onde quer que fosse. Mas onde estão os cartões de crédito, a carteira de identidade e as fotografias que ele guardava na carteira?", pergunta Rosane. "Esses objetos tinham valor afetivo para mim."

Celular no mercado negro

Quando o telefone do advogado Maurício Saraiva tocou em Brasília, na noite de 9 de outubro de 2006, dez dias haviam se passado desde o acidente com o vôo 1907 da Gol, e o corpo de sua mulher Maria das Graças Rickli, uma das vítimas da tragédia, ainda não havia sido localizado. Foi um choque ouvir a voz masculina perguntar se era o "Pretinho" quem estava na linha, já que apenas Graça o chamava por esse apelido. Mas a surpresa maior veio com a revelação feita em seguida.

Bastou Maurício se identificar para o homem contar que estava com o celular de sua mulher nas mãos, embora falasse de um subúrbio do Rio, a 1.800 quilômetros do local do acidente. "Receberam o aparelho de presente aqui no Rio, de alguém da Aeronáutica", prosseguiu o interlocutor. Para provar que falava a verdade, informou que localizara o número de "Pretinho" repetindo a última chamada feita daquele aparelho. Mais: leu outros nomes e números da agenda, começando por Anne Rickli, a primogênita de Graça. O episódio foi o primeiro sinal concreto da pilhagem às vítimas do vôo 1907.

Muitas vítimas localizadas na selva tiveram seus corpos preservados, segundo atestou o Instituto Médico Legal (IML) de Brasília, mas as jóias que estavam usando não apareceram. O pesar maior de viúvos e viúvas dos passageiros é, quase sempre, pela falta da aliança que o companheiro jamais tirava do dedo. No caso específico de Graça Rickli, o laudo 37978, seqüencial 133, da perícia realizada pelos legistas comprova que ela não perdeu nenhum dos dedos das mãos no acidente. Ainda assim, tanto a aliança como o anel de brilhantes que ela usava desapareceram.

A Aeronáutica, que trabalhou na localização e recuperação dos corpos e das bagagens, não sabe explicar como o celular apareceu no Rio. A história só chegou ao conhecimento da família porque o telefone, danificado na queda do avião, foi levado para o conserto, e um dos técnicos da loja decidiu contatar a família do dono do aparelho.